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Verdade do Cristianismo

VERDADE DO CRISTIANISMO

Filosofia

Michel Henry

EU SOU A VERDADE

A Verdade do Cristianismo deve se entender segundo o sentido fenomenológico puro que reconhecemos a este conceito. Não se trata portanto de uma verdade do tipo desta: "Os franceses tomaram a Batilha no 14 de julho de 1789". Não se trata também, consequentemente, desta outra verdade, formalmente semelhante à precedente: "O Cristo veio à terra a fim de salvar os homens". Nos dois exemplos a atenção se porta sobre um certo conteúdo, na ocorrência um fato histórico ou, como um fato deste gênero não se apresenta jamais isoladamente, sobre um certo estado de coisas ele mesmo histórico. É este estado de coisas que constitui o tema do pensamento e que só importa a seus olhos, a saber que os franceses tomaram a Bastilha no 14 de julho, ou ainda que o Cristo veio à terra. O que faz com que estes dois estados de coisas sejam verdadeiros se situa segundo o pensamento ordinário ao nível mesmo do estado de coisas e dele depende. Porque a verdade do estado de coisas parece da mesma ordem que ele e, no final das contas, não fazer senão um com ele,sua afirmação aparece como uma espécie de tautologia em relação a ele, uma maneira totalmente inútil de exprimi-lo uma segunda vez. Depois da constatação espontânea do estado de coisas — a tomada da Bastilha —, que interesse apresenta esta variante: "É verdade que os franceses tomaram a Bastilha no 14 de julho"? Que adiciona aqui o "é verdade que"?

Nada menos que a verdade do mundo. Se o estado de coisas parece valer por ele mesmo e fazer ele mesmo a prova de sua verdade, é unicamente na medida onde ele se mostra, é sob a condição de uma manifestação que nada deve à cabeça do governador nem ainda à multidão enfurecida que a escolta — manifestação sem a qual no entanto nada de tudo isso não existiria. E esta manifestação pura, totalmente diferente do que a faz manifesta, é o "fora de si", o "de fora", este oco de luz que traça o horizonte do mundo e onde se torna visível para nós tudo o que é suscetível de se conhecido por nós.

É decisivo notar que a Verdade do cristianismo difere por essência da verdade do mundo. Como esta é também verdade, mais que esta se verá, é uma verdade fenomenológica pura, em um sentido absoluto. Ela concerne consequentemente não o que se mostra mas o fato de se mostrar; o o que aparece mas a maneira de aparecer; não o que se manifesta mas a manifestação pura, ela mesma e enquanto tal. Ou, como se pode ainda dizer, não o fenômeno mas a fenomenalidade. O fato de se mostrar, o aparecer, a manifestação são conceitos fenomenológicos puros precisamente porque designam a fenomenalidade ela mesma e nada mais. Outros termos equivalentes, já mencionados porque são aqueles do cristianismo, são “aparição”, “verdade”, “revelação”. Desde que os conceitos de verdade, de manifestação ou de revelação são compreendidos em sua significação fenomenológica pura, então se coloca uma questão crucial: em que consistem esta verdade, esta manifestação, esta revelação? Que é que, nelas, resulta verdadeiro, resulta manifesto, revela? Não se trata de um poder situado atrás da manifestação, atrás da revelação, atrás da verdade, aquele de resultar manifesto, de resultar verdadeiro, de revelar — porque um tal poder por detrás não existe. É a verdade ela mesma em seu desdobramento próprio que resulta verdadeiro, é a manifestação enquanto ela se manifesta ela mesma que resulta manifesto, é a revelação em se revelando ela mesma que revela. Mas como? Em que consiste cada vez a efetividade fenomenológica desta revelação?

Que é então uma verdade que não difere em nada do que é verdadeiro? Se a verdade é a manifestação apreendida em sua pureza fenomenológica, a fenomenalidade e não o fenômeno, então o que se fenomenaliza é a fenomenalidade ela mesma. A fenomenalização da fenomenalidade ela mesma é uma matéria fenomenológica pura, uma substância da qual toda a essência é de aparecer, a fenomenalidade em sua efetuação e em sua efetividade fenomenológica pura. O que se manifesta, é a manifestação ela mesma. O que se revela, é a revelação ela mesma, uma revelação da revelação, uma auto-revelação na sua fulguração original imediata. Com esta ideia de uma Revelação pura, de uma revelação cuja fenomenalidade é a fenomenalização da fenomenalidade ela mesma, de uma auto-revelação absoluta que se passa de que quer que seja que seria outro que sua própria substância fenomenológica, estamos em presença da essência que o cristianismo coloca no princípio de toda coisa. Deus é esta Revelação pura que não revela nada de outro que si. Deus se revela. A Revelação de Deus é sua auto-revelação. Se por acaso “A Revelação de Deus” se dirigisse aos homens, ela não poderia consistir no desvelamento de um conteúdo estranho a sua essência e transmitido não se sabe como a alguns iniciados. Se revelar aos homens não poderia significar para Deus que lhes dar em partilha sua auto-revelação eterna. O cristianismo nada mais é, a bem dizer, que a teoria estupenda e rigorosa desta doação em partilha aos homens da auto-revelação de Deus.